domingo, 1 de junho de 2014

Éden - O Jardim de Deus


"Paraiso Terrestre"  de Jacob Savery

Alguns dos seguidores e também dos que entraram no blog estes últimos tempos, notaram que não escrevo desde o primeiro dia deste ano. Bem, foi um período de retiro muito necessário em que eu estive bem distante - inclusive da comunidade do Facebook. Foi um tempo essencial para que eu pudesse rever toda minha vida e expectativas; um tempo em que eu comecei a questionar tudo o que acreditava, principalmente em relação à minha fé.
Nesta fase de questionamentos, eu descobri o quanto amava uma ciência chamada antropologia, e assim me dediquei muito mais aos estudos do homem como espécie, seu desenvolvimento como criatura pensante e sua evolução como ser racional e transformador.
Algumas pessoas me escreveram neste meio tempo sugerindo temas para posts mas, recentemente, uma leitora me enviou uma mensagem perguntando se eu tinha algum material sobre a "árvore da vida" e se podia partilhar. Foi então que eu descobri que tenho uma quantia considerável de material, guardados em pesquisas e livros, sobre muitas coisas que desejo escrever, e nada melhor do que voltar aos posts com um tópico como este. 
Mas não se pode falar da árvore da vida sem antes falar do Éden, e é por isso que resolvi retornar ao blog com este tema tão antigo que reflete este período de retiro em que eu questionei a minha fé (deus), a minha atuação como paisagista (jardim), meu trabalho de pesquisas (árvores e mitologias) e o ser humano que sou (Adão).



"No princípio era o Verbo"

 

Fiat
Alguns se perguntam que verbo era esse. E eu lhes repondo: este verbo é o "Fiat" - o "Faça-se". Foi assim que o Deus bíblico começou a criação. 
E ele fez os céu, a terra e a luz. E no terceiro dia fez a semente, a árvore e o fruto. No sexto dia fez o homem à sua imagem e semelhança para dominar sobre todas as coisas.
Costumo dizer que assim se deu a criação de Deus: quando o homem o tornou semelhante a si próprio para justificar o seu domínio sobre a natureza.
As origens deste relato remontam aproximadamente meio milênio A.C, e muitos acreditam que este mito reflete de forma inconsciente, o desejo do homem de voltar ao paraíso onde tudo lhe era dado pela natureza e não precisava do suor para colher o fruto, já que tudo estava disponível. 
O Homem, quando deixou de ser um simples caçador e coletor começou a transformar a paisagem, fazendo com que a natureza o servisse. 
O advento da agricultura  (aproximadamente 10.000 anos atrás)  fez com que o homem tivesse o conhecimento das estratégias de Deus. O conhecimento trouxe ao ser humano a possibilidade de retirar da natureza aquilo que antes era apenas ofertado pela vontade divina.
Mesopotâmia
A descoberta do fruto que podia ser semeado por suas mãos, fez com que ele passasse a se ver como um ser superior, diferente dos demais seres que caminhavam sobre a terra, já que tinha nas mãos o poder de plantar e de colher o que produziu.
Deus podia ter feito as plantas e os animais, mas o ser humano sabia como controla-los, e ainda justificou tal autoridade na própria Bíblia como se fossem as palavras do próprio criador (Gênesis 1,28 -"e dominai sobre todas as coisas!").
dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra.

Gênesis 1:28
O "fiat" não estava somente das mãos de Deus; o homem passou a recriar. Era dele também o "Faça-se".


O Paraíso Perdido


O Éden é alegórico e mitológico, mas nem sempre foi visto desta forma. Na Idade Média, os teólogos acreditavam que ele era um lugar tangível em nosso mundo e que estava no Oriente Médio.  
A procura pelo jardim perdido, levou muitos homens à buscas desenfreadas. Os cruzados pretendiam encontra-lo próximo à Jerusalém e  Cristovão Colombo estava seguro de que ele estava nas Américas.
Somente séculos mais tarde começou-se a questionar se o Jardim do Éden seria mesmo físico. Hoje, nem mesmo a Igreja Católica acredita literalmente neste conto, porém muitos ainda  discutem se este mito foi inspirado em algum lugar real.
 É claro que, se um dia houve um local que inspirou o Éden, ele deve estar perdido na região onde hoje se localiza a  antiga Mesopotâmia - já que a bíblia é um compilado de livros que narram a história dos israelitas e os povos circunvizinhos. Curioso é que os indícios mais antigos do desenvolvimento agrícola foram encontrados também nesta região.
De toda forma, a procura pelo Éden foi também a procura pelas origens do homem e da sua autenticidade como imagem e semelhança divina. Até hoje, para os que acreditam no Paraíso celeste, o descanso no "reino dos céus" é a recompensa por ser "filho de Deus". Não raramente, este reino é retratado como um belo jardim onde tudo é perfeito - e onde nem todos entrarão.
A palavra jardim faz menção a algo fechado, cercado, restrito, e Adão era o responsável por aquele que o Criador lhe confiou.
Segundo a história: uma vez expulsos do Éden, o homem e a mulher deixaram de desfrutar dos privilégios que lhes fora dado, assim, deveriam lavrar a terra e comer dela. O Paraíso foi definitivamente perdido.
A serpente, símbolo antigo da sabedoria (a mais astuta), disse que eles podiam entender os mistérios e adentrar grandes segredos se comessem do fruto da árvore do conhecimento.
O Homem então decifrou o enigma que havia dentro do fruto - as sementes que germinavam quando plantadas. Era saboroso o saber e delicioso o descobrimento, entretanto, perdeu-se tudo que lhe era dado.
Ao partirem, o homem e a mulher levaram consigo a fúria de Deus. Sua ira estava sobre tempestades furiosas, secas devastadoras e pragas que destruíam as colheitas. Não havia onde se esconder. 
O ser humano estaria para sempre à mercê da vontade do criador e seu eterno rancor por ter sido desobedecido. 


"O Trabalho de Adão" de Alonso Cano



3 comentários:

Nana-Chan disse...

Muito bom esse post!

Professor Pedro A. C. Teixeira disse...

Pena que todos não tenham este conhecimento, pois o mítico e o alegórico passaram para milhões como verdadeiros.
Parabéns pelo belíssimo post.

Carlos disse...

Fantástico, nunca havia visto o Gênesis sob esta ótica.

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