segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Cernunnos - O Deus das Feiticeiras

Hoje se celebra o "Dia das Bruxas" e muitos comemoram esta data de forma bastante fantasiosa, misturando as feiticeiras aos monstros das histórias fantásticas, fantasmas, vampiros e demônios assustadores. Mas a grande maioria desconhece as origens desta miscelânea e muitos se perguntam se a chamadas "bruxas" acreditam em deus ou cultuam mesmo o diabo. Bem, esta é um postagem para esclarecer alguns mitos em relação as deidades das feiticeiras.
Primeiramente é preciso dizer que a bruxaria é algo complexo, que não se anula em um único texto, pois há vários períodos históricos, locais diversos e muitas religiões e práticas pagãs que foram colocadas todas em um mesmo caldeirão onde o culto foi denominado "bruxaria" e "feitiçaria".
A veneração às divindades chifrudas existe deste tempos remotos que antecedem, e muito, ao cristianismo. Babilônicos, egípcios, gregos, entre outros povos indo-europeus, já viam nos chifres uma beleza que impunha realeza e majestade, além de ser um símbolo masculino pois, em muitas das espécies de mamíferos, os machos têm os chifres maiores que as fêmeas e quanto maior o chifre mais imponente o animal se torna.
De acordo com a escritora Margaret Murray em seu livro "O Deus das Feiticeiras", publicado em 1933, quando Roma começou a expandir o seu Império e a registrar os costumes pagãos, chamaram de "Cernunnos" o deus cultuado na Gália (atual França) cujo nome significa "aquele que tem chifres". Ainda de acordo com a doutora Murray, o que tinha valor na Gália também valia para as Ilhas Britânicas e, conforme citam alguma fontes eclesiásticas, o culto ao deus chifrudo era muito comum na Bretanha medieval, assim como vestir-se como um animal selvagem usando chifres (parte de rituais pagãos). O que era abominável e demoníaco segundo a Igreja.
O nome Cernunnos aparece no Piliers des Nautes, um bloco de pedra que data do primeiro século d.c que pertenceu a um templo gallo-romano da antiga cidade de Lutetia (atual París). Nela está escrito com letras romanas "Cernvnnos" acima da imagem do deus chifrudo. Algo interessante é que este bloco foi encontrado nas fundações da Catedral de Notre Dame em 1770. 
O chifrudo seria, portanto, o deus celta das feiticeiras, embora não seja o único já que os celtas eram politeístas. Portanto, não existia um único Deus, mas Cernunnos representava a natureza masculina e a fertilidade em sua essência,  numa deidade meio homem meio animal e de aparência selvagem.
Mas, por que o "Deus das Feiticeiras? A resposta é: por assimilação ao diabo.




Ele é o Diabo?

Definitivamente não, mas para os cristãos era o mais próximo que se chegava de um e, como as feiticeiras eram, para a Igreja, "adoradoras do demônio" ele era uma representação perfeita do líder de todos os anjos caídos. Por ser um deus selvagem, sexual, sem pudores (como os animais) e que vive na Terra, ele se enquadrou exatamente no estereótipo buscado por aqueles que acreditavam na existência de um diabo. Contudo, as denominadas bruxas jamais acreditaram neste ser maligno que os cristãos tomaram como o opositor de Deus.
O Diabo Medieval
Mas a figura do diabo como é vista em nossos dias não é tão antiga quanto o personagem que até hoje é mais temido do que o próprio Deus cristão. Foi somente na idade média que este anjo mau adquiriu chifres, garras, rabo e asas, primeiramente numa associação ao deus Pan que muitos julgavam ser o autor dos males que assolavam a sociedade antiga,  foi também nesta época que a associação dele ao sexo se tornou mais frequente. Diziam que ele era capaz de se materializar, seduzir e corromper as mulheres e que ele as usava com mais facilidade, pois a mulher era mais propensa ao pecado do que o homem,  sendo através de uma mulher (Eva) que o mal entrou no mundo.
Esta ideia se manteve até Renascimento, mas figura de Satanás após este período foi deixando de ser bestial e feia e ele passou a ser retratado de modo mais humano e atraente. E quanto mais atraente se tornava, mais sedutor e corrupto, e diante da "caça as bruxas" seria necessário uma justificativa para condena-las. Portanto, o diabo chifrudo se tornou o adorado das bruxas e a divindade celta que mais se assemelhava a ele era Cernunnos.
Muitos devem se perguntar: por quê o celta e não o romano, ou grego? Por um motivo muito simples: os celtas, tanto da Gália quanto da Bretanha, foram os que mais resistiram ao Império Romano e também a nova doutrina. Tal resistência manteve vivo muitos dos cultos pagãos nas comunidades do Oeste Europeu e principalmente das Ilhas Britânicas.
E assim, uma divindade ligada à fertilidade e a natureza se tornou um malévolo ser de origem cristã, e uma deidade pagã se transformou num "verdadeiro" deus das feiticeiras.



quinta-feira, 9 de junho de 2016

A Palma e o Lírio - Pureza e Martírio


Muitas vezes me perguntaram por quais motivos vemos nas imagens dos santos católicos estas duas plantas. Aposto que grande parte dos fiéis cristãos não sabem ou nem mesmo se questionam e buscam compreender o significado destes ícones.
Não raramente se vê nas imagens, ícones ou pinturas que retratam os grandes santos do catolicismo, ora o lírio ora o ramo de palmeira. Através destas plantas simbólicas, podemos conhecer um pouco mais da vida destes personagens.
Sto. Antônio de Pádua
O Lírio branco (Lirium candidum), é uma espécie que está relacionada à pureza e a virgindade, portanto, se na imagem o santo aparece segurando um lírio, é sinal de que viveu em castidade até o final da vida, se abstendo de quaisquer tipos de relações sexuais. É o caso de Santo Antônio de Pádua, Santa Clara e São José (reza a lenda que este foi casto até a morte, mantendo a castidade de sua esposa - a Virgem Maria). Algumas imagens de Nossa Senhora também são representadas com este ítem, como é o caso de Nossa Senhora da Anunciação. O lírio branco é sinal de penitência e abstinência daqueles que escolheram deixar de lado os desejos da carne.
Quanto à palma, que especificamente se trata de uma folha de Palmeira Fenix (Phoenix dactylifera), simboliza o martírio do santo, aqueles que doaram a vida em nome de Cristo e da Igreja, preferindo a tortura e a morte violenta à renúncia da fé. Temos muitos exemplos de santos populares cujas imagens carregam o ramo de mártir nas mãos. Exemplo destes são: Santo Expedito, São Cosme e São Damião, Santa Catarina de Alexandria, Santa Luzia e Santa Bárbara.
Estes dois símbolos são representações de como viveram ou morreram os santos cristãos e há séculos figuram as imagens para que os fiéis possam associar e lembrar daqueles que, em nome da fé, renunciaram ao corpo físico em busca da santidade espiritual. Entretanto, nem todos os santos que foram mártires têm este símbolo acompanhando suas imagens: São Pedro morreu crucificado de cabeça para baixo e é representado segurando uma chave, já São Sebastião é representado  com as mãos amarradas e o corpo atingido por flechas. Há o caso também daqueles que possuem ambos os símbolos, como Santa Maria Goretti, Santa Filomena e, muitas vezes, Santa Agnes. Mártires e castas segundo a doutrina católica.


Lirium Candido


O lírio, também conhecido como Açucena, há milênios está repleto de simbologias. Ele aparece na Mitologia Grega onde é criado pelas gotas do leite derramado da Deusa Hera que, ao caírem sobre terra, se transformaram em flores brancas e perfumadas. A palavra lírium vem de 'lerios' que significa pálido e delicado e candido vem do latim "branco", que também pode ser traduzido como puro, brando, inocente, imaculado ou incorrupto.
Pelos cristãos, Jesus é chamado de Lírio dos Vales, numa associação ao trecho do "Cântico dos Cânticos" que exalta a pureza da flor, pois foi concebido sem pecado. Sua mãe Maria, de acordo com os evangelhos, pergunta ao anjo Gabriel como seria possível gerar um filho sem nunca ter "conhecido homem" e,  segundo a tradição católica, nem chegou a conhecer, permanecendo assim  imaculada.
É possível que a primeira imagem de Maria onde ela aparece junto a um lírio seja a do século XIV que se encontra na Catedral de Siena e foi pintada por Simone Martini, um pintor italiano do período gótico. Posteriormente, a Anunciação foi retratada por grandes nomes da arte, como Botticelli, Rafael e Michelangelo. Há também a Madona dos Lírios, uma bela obra do pintor francês William-Adolphe Bouguereau. Mas, sem dúvidas, o quadro mais famoso é do renascentista Leonardo da Vinci, onde os lírios aparecem não somente nas mãos do anjo como em todo o jardim sob ele. A partir do Renascimento, as imagens de São Gabriel passaram a retratar o  arcanjo segurando o lírio branco - a flor que ele entrega à virgem Maria quando anuncia que esta carrega no ventre o filho de Deus. 

"A Anunciação"  de Leonardo da Vince - Século XV
 


Tamareira - A Palmeira Fenix

É, particularmente, minha palmeira favorita: a mais bonita, de folhagem mais vistosa e de tronco mais ornamental. Sua origem ainda é contraditória, há quem diga que tem suas raízes no norte da África, outros alegam que é do oriente da Asia, mais especificamente na península arábica. Na realidade Phoenix é um gênero de 14 espécies de palmeiras também conhecidas como 'Palmeiras do Deserto', sendo bem comuns nos climas áridos da região próxima ao mediterrâneo. Seu fruto, a tâmara, tem sabor agridoce e é uma importante fonte de subsistência para os povos do oriente médio e do Sahara. Há quem diga que um beduíno pode enfrentar três dias de caminhada com uma única tâmara: no primeiro dia ele come a pele, no segundo o fruto e no terceiro o caroço. Com ela é possível fazer doces, geleias, licores, vinagres e álcool. 
Os caldeus (povos da antiga Mesopotâmia) a veneravam como a "árvore da vida", por tudo o que ela podia oferecer como alimento e ser uma das poucas espécies que resistem às temperaturas extremas, em solo arenoso, pobre e, muitas vezes, de alta salinidade.
As tamareiras também são aquelas que indicam os Oasis, regiões férteis cuja presença de àgua é muitas vezes a salvação daqueles que andam pelas dunas hostis dos desertos. Ao avista-las em agrupamento, os viajantes têm a esperança de que logo poderão matar a sede e descansar.
A palavra palmeira faz menção à palma da mão, pois as folhas assemelham-se a uma palma aberta. Phoenix provém de phoinix (grego) que, segundo a mitologia, era o nome da ave que renascia das próprias cinzas. De acordo com algumas lendas, era onde a ave fazia seu ninho, mas há estudiosos que acreditam que esta associação se deve à semelhança entre a as folhas da palmeira e as asas abertas de uma ave gigante. 
É possível que a relação entre a palma e os mártires tenha raízes nesta alegoria entre a morte e o renascimento. Os mártires abriram mão de suas vidas terrestres com a crença de uma próxima vida que se daria no céu.







 

sábado, 19 de dezembro de 2015

Os Reis Magos - Ouro, Incenso e Mirra


Às vésperas do Natal, festa da natividade de Jesus, já se vê muitas casas e árvores enfeitadas com luzes que simbolizam as estrelas da noite em que o Cristo nasceu. Três reis magos foram guiados por uma delas, a estrela mais brilhante de todas que conduzia até a pobre manjedoura de Belém, onde Maria e José se encontravam junto aquele que seria o Messias. Eles levavam presentes ao menino Deus e, ajoelhados, o adoraram.
Esta é uma narrativa emocionante, embora seja mais verdadeira para aqueles que acreditam nela do que para os estudiosos da cristandade. 
A breve história sobre estes sábios homens está em Mateus, 2,1:  "E, tendo nascido Jesus em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes, eis que uns magos vieram do oriente a Jerusalém, dizendo: Onde está aquele que é nascido rei dos judeus? porque vimos a sua estrela no oriente, e viemos a adorá-lo."
Bem, há algo interessante neste trecho, pois não há nenhuma referência de que eram reis, assim como não há ao longo do texto nada que deixe evidente que eram três.
Posteriormente os magos foram denominados: Melchior, Balthassar e Gaspar. Estes nomes aparecem no mosaico da Catedral de Santo Apolinário, em Ravena (Itália), do Século VI. É provável que eles foram tirados no manuscrito grego "Excerpta Latina Barbari" do primeiro Século d.C. Mas como muito do que se pregou na Idade Média fazia parte do folclore popular ou tinha origem pagã, não há fontes fidedignas que façam ligação dos nomes em questão com os personagens do evangelho.
Segundo a tradiçao cristã, Melchior era persa, Balthassar era árabe e Gaspar era indiano. Uma outra tradição diz que um era negro, um era moreno e o outro caucasiano. Há também a história de que um era jovem, um de meia-idade e o outro já idoso. Esta última referência serviu de inspiração para o Mosaico da catedral de Ravena.

Balthassar, Melchior e Gaspar  - Mosaico da Catedral de Ravena - Século XVI



Ouro, Incenso e Mirra


Eis o principal motivo pelo qual os magos foram enumerados posteriormente e definidos como três reis. Embora não haja nenhuma citação de que eram dois ou mais. Está escrito em Mateus no capítulo 2, 11: " E, entrando na casa, acharam o menino com Maria sua mãe e, prostrando-se, o adoraram; e abrindo os seus tesouros, ofertaram-lhe dádivas: ouro, incenso e mirra."
Bem, partindo do princípio que eram magos, é bem provável que pertenciam à nobreza, já que esta classe de sábios fazia parte desta casta. Também está escrito que eles abriram os tesouros e ofertaram ao menino, itens de grande valor na época, o que leva a crer que eram ricos. Se eram nobres e ricos podiam ser reis, mas é evidente que se fossem mesmo membros da realeza com tão alto título o evangelista não deixaria passar este detalhe.
 A crença popular diz que Gaspar levava o Ouro, Melchior o incenso e Balthassar a mirra. 
O ouro é, de todos os metais, o mais precioso e, na Idade Antiga, uma das principais moedas de troca já que não existia o dinheiro. 
O incenso, também conhecido como Franquincenso (incenso-verdadeiro), é uma resina clara obtida da seiva da Boswelia sacra, árvore também conhecida como Olíbano-da-Somália ou simplesmente Olíbano (Leia no post "A Sarça Ardente - Acácia de Fogo"). Ao ser queimada, a resina libera um perfume que os antigos diziam acalmar a alma e purificar o espírito, por este motivo era muito utilizada nos templos e cerimônias.
A Mirra, assim como o incenso, é uma resina extraída de uma árvore, Commiphora myrrha, originária do norte da África e do Oriente Médio. Com ela se fazia o bálsamo aromático e tinha duas vezes mais valor que o Ouro. O balsamo era usado para embalsamar os mortos e ungir o corpo, principalmente em ritos religiosos. 
Teólogos afirmam que os itens presenteados pelos magos têm significados específicos: o ouro representa a realeza do Messias, o Incenso o seu sacerdócio e a Mirra a sua unção.


Franquincenso e Mirra vendidos no Mercado Árabe



sexta-feira, 19 de junho de 2015

Ilex - O Rei Azevinho

Às vésperas do Solstício de Inverno aqui no hemisfério Sul, já se sente as temperaturas caírem consideravelmente, as pessoas ficarem mais reflexivas e algumas mais melancólicas. É como se estivesse em nossa memória genética que este é um tempo de introspecção, de silêncio, de guarda.
Nossos ancestrais europeus, ao observarem a paisagem hibernal podiam concluir que somente um ser divino era capaz de morrer e ressuscitar numa mesma vida, e a grande maioria das árvores de clima temperado tem esta característica. Elas hibernam e, para guardarem energia, perdem suas folhas.
Mas o resistente azevinho foge à regra, ele  um dos poucos que não morre, pelo contrário, com a neve se destaca e parece ainda mais vivo. Ele começa a frutificar no Outono e, no Inverno, está mais bonito e brilhante.
No post, "A Batalha dos dois Reis", é contada a lenda do Rei Carvalho e do Rei Azevinho que lutam pelo controle da floresta. No solstício de verão, o Rei Carvalho sucumbia ao Rei Azevinho que reinava até o solstício de inverno. De modo particular, este mito era utilizado para explicar as mudanças das estações do ano, utilizando-se de algo visivelmente natural e presente, sem que uma deidade longínqua e celeste pudesse ser responsabilizada por isso.
O azevinho é minha árvore favorita e não quero expor aqui os inúmeros motivos pelos quais se tornou o meu predileto. Embora não seja propriamente uma árvore mas botanicamente um arbusto, pode chegar aos oito metros e viver até 300 anos. Seu nome científico é Ilex, da família aquifoliaceae, que inclui a Erva Mate (Ilex paraguariensis), tão famosa entre a população dos Pampas brasileiros e os povos paraguaios, argentinos e chilenos que a utilizam para fazer chimarrão e tererê.
Ilex aquifolium
Mas, o Rei Ilex é, sem dúvidas, o Ilex aquifolium (azevinho europeu), espécie de folhas pequenas, verde-escuras, alternadas, lanceoladas, coriáceas e extremamente cortantes. 
Muitos outros arbustos são confundidos com o azevinho, chegando inclusive a ser vendidos como tal. Entre eles estão o Osmantus (Osmanthus heterophyllus - asiático), a Mahonia (Mahonia aquifolium - norte-americana) e a Espinheira-santa (Maytenus ilicifolia - sul-americana). Para os olhos menos criteriosos, a semelhança é tanta que é difícil diferenciar um e outro, por este motivo o Osmantus é chamado de "Falso Azevinho" e a Mahonia é também conhecida como "Azevinho de Oregon".
Mas há uma forma muito eficaz para se distinguir um azevinho legítimo das outras plantas semelhantes, basta observar a maneira como brotam as folhas: azevinhos verdadeiros possuem folhas que crescem alternadas, enquanto o Osmantus e a Mahonia têm folhas opostas.



Símbolo Natalino

Seus ramos e bagas estão estampados em cartões, toalhas de mesa, enfeites de portas, louças, entre outros adornos que fazem do azevinho um dos principais símbolos natalinos. O próprio Natal tem as cores da planta e a associação é rápida e espontânea quando alguém se depara com um arbusto.
O azevinho tornou-se um dos principais símbolos natalinos e muitos não sabem os reais motivos pelos quais isto ocorreu. A principal teoria é que, devido a falta de flores e cores no inverno do hemisfério norte, ele era um dos poucos que apresentavam um verde vivo e frutos vermelhos nesta época do ano, então, juntamente com a Hera (Hedera helix), eram feitas coroas e guirlandas para os festejos pagãos do Solstício de Inverno (Saturnália/Yule).
Posteriormente, as festas pagãs foram substituídas pela Festa do Natal cristão, mas hábitos arraigados dificilmente são deixados e o "Rei Azevinho" não perdeu sua coroa.
As famosas guirlandas começaram a ser usadas nos enfeites das igrejas cristãs e até mesmo o Papai Noel tem características do Rei Azevinho, basta observar as cores de suas roupas: vermelho como as bagas, verde como as folhas e branca como a neve.
Na realidade, o bom velhinho é multicultural e até hoje não se sabe ao certo qual sua verdadeira origem. Há quem assegure que o Papai Noel tem origem cristã, cuja lenda nasceu com São Nicolau de Mira, um generoso bispo da Turquia. Outros dizem que ele foi inspirado no velho Saturno (leia no Post "O ceifador - O Espirito do Ano Novo") e há também aqueles que afirmam é uma representação de Odin cuja festa, Yule, acontecia exatamente  no solstício de inverno (entre 21 e 24 de Dezembro). Em sueco, Papai Noel é Jultomte, em norueguês Julenisse e em dinamarquês Julemanden, e todos fazem referência à Yule, festival do solstício. Portanto, o rei pagão se tornou um símbolo cristão.
Há uma antiga canção natalina tradicional inglesa conhecida como "The Holly and the Ivy" (O azevinho e a Hera), cujo refrão principal diz "De todas as árvores da floresta, é o azevinho que porta a coroa". E quem é rei jamais perde a majestade.


video

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Serpentes - O Mal Encarnado

Nenhum outro animal gera tanto medo e fascínio ao ser humano quanto as serpentes. Nas mais diversas mitologias, do oriente ao ocidente, das tribos mais antigas às mais recentes da história da humanidade, cobras são demonizadas e divinizadas.
São incontáveis as histórias que relacionam deuses e serpentes, talvez porque os seres humanos sempre mantiveram por elas um certo temor e respeito, assim como aos deuses.
Para a esmagadora maioria das pessoas, a cobra é o animal mais amedrontador do Planeta, o próprio mal encarnado. Salvo algumas exceções, a maioria dos mitos referente às serpentes a associam com algo maléfico.
O simples fato de olhar a imagem acima, deixa muitos de cabelos em pé. Não é a toa, pois a cobra é o animal mais mortífero do mundo, o que mais ameaça o ser humano, pelo menos aparentemente. Sabe-se hoje que os mosquitos são muito mais letais e perigosos aos seres humanos do que as cobras, mas nossos ancestrais não sabiam disto.
Nosso medo das cobras está diretamente ligado aos tempos em que pertencíamos aos grupos de hominídeos que viviam nas árvores. Os primatas - macacos, lêmures, símios e humanos - temem instintivamente as cobras desde muito cedo, desde a infância, reconhecendo nelas a ameaça iminente. 
Nossos ancestrais que viveram na África não tinham grandes predadores quando estavam nas árvores, porém tinham, muito próximo, um animal silencioso, de ataque rápido, mordida dolorosa e veneno altamente letal. O ancestral primata do ser humano, desceu da árvore, tornou-se ereto e um animal pensante altamente complexo , mas trouxe consigo a herança de milênios de convívio turbulento e atribulado com as serpentes. 
No post sobre o "Jardim do Éden" foi abordado o tema do lugar supostamente perfeito, que seria realmente  perfeito se não houvesse uma serpente capaz de tirar a paz. Certo é que as cobras sempre fizeram parte de nossos piores pesadelos e é de se imaginar o medo constante que os hominídeos tinham daquelas que partilhavam com eles as árvores das savanas e que, ao contrário dos pássaros e insetos, podiam ser confundidas com galhos e não eram nada amistosas. Talvez, na mente de nossos ancestrais primatas, as víboras eram más por excelência, pois ao contrário de outros animais que eles observavam, elas não se alimentavam de todos que picavam, e mesmo assim os matavam.
Mas, embora fossem as mais temidas, não somente as cobras amedrontavam os "homens-macacos", os escorpiões peçonhentos também causavam pânico e isto talvez explique o medo tão comum de aranhas e baratas. A primeira faz parte do mesmo grupo dos escorpiões (aracnídeos) e, embora um número pequeno delas tem veneno, se parecem bastante com eles. Quanto as baratas, talvez poucos tenham assimilado a semelhança entre ambos - mas é possível notar que baratas são pequenos escorpiões sem rabo. Muitos alegam que o medo de barata é na verdade nojo, mas todos tremem se uma barata gruda na roupa ou na pele e,  na minha concepção, isto tem pouco a ver com nojo (causa sim arrepios). Escorpiões não estão mais tão próximos de nossas residências, mas as aranhas e as inofensivas baratas ocuparam muito bem o lugar por eles deixado.
A mente humana não consegue facilmente desassociar algo que durante séculos de evolução foi criado para nossa proteção. O medo faz parte de um mecanismo de defesa, onde o enfrentamento pode significar a própria morte e manter a sobrevivência é mais importante
Uma vez que o Homem criou a Deus como o símbolo de  proteção, o venerou primordialmente como o  Sol que todos os dias iluminava a Terra e trazia à tona tudo que era possível enxergar. Quanto às sombras, estavam repletas de cobras malévolas, de visão noturna, astutas, que não faziam barulho e atacavam no primeiro sinal de movimento e matavam, elas então se tornaram a representação do mal, muito mais concreta e corpórea do que o sol que não podia ser tocado.
A serpente demoníaca vivia na árvore, enganou o Homem  atrás do fruto apetitoso. Deu o bote e tirou a vida de Adão e Eva, expulsou-os do Paraíso. São seres que nunca mais terão nossa confiança e serão para sempre nossas inimigas.







segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

A Árvore da Vida - A Mulher e a Maçã


No livro do "Gênesis" capítulo 2, versículo 9 está escrito:

"Então o Senhor Deus fez nascer do solo todo tipo de árvores agradáveis aos olhos e boas para alimento. E no meio do jardim estavam a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal."

No post anterior foi abordado como o Homem fora expulso do Paraíso após ter comido do fruto da Árvore do Conhecimento. Devido à desobediência ao que lhes fora imposto, Adão e Eva deixaram o jardim do Éden para sempre.

Gên. 16 - 17:  "E o Senhor Deus ordenou ao homem: Coma livremente de qualquer árvore do jardim, mas não coma da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque no dia em que dela comer, certamente você morrerá."

Segundo o mito, através do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, o primeiro homem e a primeira mulher foram condenados e banidos do jardim de Deus - toda história é envolvida por este feito. Mas, no livro da criação não há maiores detalhes sobre a "Árvore da Vida", como ela era e qual o seu real papel no mito. 
De acordo com o Gênesis, o único fruto que não podia ser consumido era o da Árvore do Conhecimento, todos os outros eram permitidos, e é sabido que a árvore da vida também tinha fruto:

Gên. 3,22-24: "Eis que agora o ser humano tornou-se como um de nós, conhecendo o bem e o mal. Não devemos permitir que ele também estenda a sua mão e tome do fruto da árvore da vida e comendo-o possa viver para sempre!"
Assim, conclui-se que a árvore da vida era também a árvore da eternidade e, embora não houvesse nenhuma proibição quanto ao seu consumo, ele não foi provado.

A Árvore da Vida


Na continuação do versículo acima está escrito que, após expulsar o Homem do Paraíso, Deus colocou, ao oriente do Jardim do Éden, querubins armados por espadas flamejantes que guardariam o caminho da árvore da vida. Portanto, nem mesmo se quisesse voltar, o Homem seria capaz de tomar o novo fruto proibido e descobrir a fórmula da imortalidade.
Desde que o ser humano começou a compreender a sua existência, a morte foi  um grande mistério. Talvez, para aqueles que criaram o mito, descobrir este segredo era tão impossível quanto cruzar novamente os portões do jardim divino e enfrentar querubins armados.
De toda forma, o Homem nunca desistiu de encontrar outra fórmula para a vida eterna. Há séculos atrás, na Idade Média, grandes mestres da alquimia tinham como principal busca a famosa "Pedra Filosofal", o elixir da longa vida. 
Muitos viveram na frustrada procura pela famosa "Fonte da Juventude" que, segundo a lenda, possuía águas capazes de fazer rejuvenescer, curar as doenças e revigorar qualquer um que as tomasse ou se banhasse nelas. Há narrativas de que até mesmo Alexandre (o Grande) chegou a procurar por tal fonte.
Mas os mitos sobre imortalidade, árvores divinas e frutos miraculosos não são exclusivos do povo hebreu e do meio oriente. Na mitologia nórdica há uma fascinante história envolvendo alguns destes itens, porém, ao invés de uma só árvore, é um pomar guardado não por um Deus mas por uma bela Deusa. Ironicamente, nesta história, é a maçã o fruto da vida.

As Maçãs de Idunna
 
Na mitologia nórdica, toda a vitalidade, força e poder dos deuses (Aesir) só é possível porque existe uma forte presença feminina por trás disto. Ao contrário de outras mitologias, os deuses nórdicos não são eternos e imortais somente porque são deuses, mas por meio de um ato muito humano - o de comer.
A imortalidade dos memoráveis Odin, Thor e Loki depende de Idunna (Iðunn), uma bela deusa que faz brotar em seu pomar, maçãs douradas e, através de seu encanto, as transformam em frutos mágicos. Os deuses se alimentam destas maçãs diariamente, e este é o segredo do vigor dos Aesir.
Uma lenda viking conta que, certa ocasião, Idunna foi raptada por uma enorme águia a mando do gigante Thiazi. Com a senhora das maçãs em poder dos malvados gigantes, os deuses não tinham como manter seus poderes e logo começaram a ficar debilitados e a envelhecer. Foi preciso a intervenção de Loki, o astuto , que também estava envolvido em tal rapto, para que Idunna fosse resgatada e os outros deuses pudessem recobrar a juventude e a vitalidade.
Este é um mito um tanto interessante, pois entra em contradição com muitos conceitos judaico-cristãos. O primeiro deles é que a mulher, neste caso, não é a que leva à perdição, mas a que traz a vida. O segundo se trata do fruto em questão, a maçã, que há séculos foi considerado e apedrejado como ícone da perdição e do pecado e, nesta lenda, é glorioso e exaltado como alimento primordial dos deuses.
É certo que a maçã nem sempre fora relacionada ao fruto proibido; não há um só texto bíblico que a cite, posto que a macieira é uma árvore de clima temperado e frio e não havia como adaptar-se facilmente no árido deserto asiático. Este vínculo ocorreu na Idade Média, com o advento do catolicismo patriarcal. A Igreja, durante séculos alinhou ao pecado quase tudo que tivesse conexão com o feminino - a própria mulher era ligada ao demônio, por isso que tantas eram denominadas bruxas e foram vítimas das piores torturas na Inquisição. Muitas acabaram sendo queimadas por heresias e supostos pactos com o diabo (enquanto muitos homens saiam ilesos, apenas como vítimas da maldade do sexo oposto). 
Em muitas comunidades pagãs da Europa, a maçã era símbolo da mulher e da feminilidade. Talvez os povos antigos puderam observar a semelhança que existia entre a vulva e a maçã (quando a fruta é cortada ao meio) e a  relacionaram  ao órgão genital feminino. Consequentemente aos encantos da mulher.
Como tudo que estava ligado à sexualidade foi posteriormente rejeitado pela Igreja (ao contrário dos pagãos que não viam delito no sexo), a venerada maçã se tornou símbolo do pecado, Acreditava-se que a mulher era causadora do mal da humanidade e não o homem, pois fora Eva que tentou Adão e não o contrário.
Os mitos se opõem e se encontram em suas mensagens: de um lado está Eva (a mãe da humanidade) e do outro Idunna (a deusa que alimenta os Aesir), mas ambas capazes de mudar o destino de personagens lendários.
O Deus judaico-cristão mudou seus planos por um simples ato de Eva, e os nórdicos deixariam de existir se não fossem as maçãs que passavam pelo toque mágico de Idunna.  
Ambas mulheres, ambas que tinham nas mãos a vida de homens e deuses. Maldito ou bendito fruto?









domingo, 1 de junho de 2014

Éden - O Jardim de Deus


"Paraiso Terrestre"  de Jacob Savery

Alguns dos seguidores e também dos que entraram no blog estes últimos tempos, notaram que não escrevo desde o primeiro dia deste ano. Bem, foi um período de retiro muito necessário em que eu estive bem distante - inclusive da comunidade do Facebook. Foi um tempo essencial para que eu pudesse rever toda minha vida e expectativas; um tempo em que eu comecei a questionar tudo o que acreditava, principalmente em relação à minha fé.
Nesta fase de questionamentos, eu descobri o quanto amava uma ciência chamada antropologia, e assim me dediquei muito mais aos estudos do homem como espécie, seu desenvolvimento como criatura pensante e sua evolução como ser racional e transformador.
Algumas pessoas me escreveram neste meio tempo sugerindo temas para posts mas, recentemente, uma leitora me enviou uma mensagem perguntando se eu tinha algum material sobre a "árvore da vida" e se podia partilhar. Foi então que eu descobri que tenho uma quantia considerável de material, guardados em pesquisas e livros, sobre muitas coisas que desejo escrever, e nada melhor do que voltar aos posts com um tópico como este. 
Mas não se pode falar da árvore da vida sem antes falar do Éden, e é por isso que resolvi retornar ao blog com este tema tão antigo que reflete este período de retiro em que eu questionei a minha fé (deus), a minha atuação como paisagista (jardim), meu trabalho de pesquisas (árvores e mitologias) e o ser humano que sou (Adão).



"No princípio era o Verbo"

 

Fiat
Alguns se perguntam que verbo era esse. E eu lhes repondo: este verbo é o "Fiat" - o "Faça-se". Foi assim que o Deus bíblico começou a criação. 
E ele fez os céu, a terra e a luz. E no terceiro dia fez a semente, a árvore e o fruto. No sexto dia fez o homem à sua imagem e semelhança para dominar sobre todas as coisas.
Costumo dizer que assim se deu a criação de Deus: quando o homem o tornou semelhante a si próprio para justificar o seu domínio sobre a natureza.
As origens deste relato remontam aproximadamente meio milênio A.C, e muitos acreditam que este mito reflete de forma inconsciente, o desejo do homem de voltar ao paraíso onde tudo lhe era dado pela natureza e não precisava do suor para colher o fruto, já que tudo estava disponível. 
O Homem, quando deixou de ser um simples caçador e coletor começou a transformar a paisagem, fazendo com que a natureza o servisse. 
O advento da agricultura  (aproximadamente 10.000 anos atrás)  fez com que o homem tivesse o conhecimento das estratégias de Deus. O conhecimento trouxe ao ser humano a possibilidade de retirar da natureza aquilo que antes era apenas ofertado pela vontade divina.
Mesopotâmia
A descoberta do fruto que podia ser semeado por suas mãos, fez com que ele passasse a se ver como um ser superior, diferente dos demais seres que caminhavam sobre a terra, já que tinha nas mãos o poder de plantar e de colher o que produziu.
Deus podia ter feito as plantas e os animais, mas o ser humano sabia como controla-los, e ainda justificou tal autoridade na própria Bíblia como se fossem as palavras do próprio criador (Gênesis 1,28 -"e dominai sobre todas as coisas!").
dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra.

Gênesis 1:28
O "fiat" não estava somente das mãos de Deus; o homem passou a recriar. Era dele também o "Faça-se".


O Paraíso Perdido


O Éden é alegórico e mitológico, mas nem sempre foi visto desta forma. Na Idade Média, os teólogos acreditavam que ele era um lugar tangível em nosso mundo e que estava no Oriente Médio.  
A procura pelo jardim perdido, levou muitos homens à buscas desenfreadas. Os cruzados pretendiam encontra-lo próximo à Jerusalém e  Cristovão Colombo estava seguro de que ele estava nas Américas.
Somente séculos mais tarde começou-se a questionar se o Jardim do Éden seria mesmo físico. Hoje, nem mesmo a Igreja Católica acredita literalmente neste conto, porém muitos ainda  discutem se este mito foi inspirado em algum lugar real.
 É claro que, se um dia houve um local que inspirou o Éden, ele deve estar perdido na região onde hoje se localiza a  antiga Mesopotâmia - já que a bíblia é um compilado de livros que narram a história dos israelitas e os povos circunvizinhos. Curioso é que os indícios mais antigos do desenvolvimento agrícola foram encontrados também nesta região.
De toda forma, a procura pelo Éden foi também a procura pelas origens do homem e da sua autenticidade como imagem e semelhança divina. Até hoje, para os que acreditam no Paraíso celeste, o descanso no "reino dos céus" é a recompensa por ser "filho de Deus". Não raramente, este reino é retratado como um belo jardim onde tudo é perfeito - e onde nem todos entrarão.
A palavra jardim faz menção a algo fechado, cercado, restrito, e Adão era o responsável por aquele que o Criador lhe confiou.
Segundo a história: uma vez expulsos do Éden, o homem e a mulher deixaram de desfrutar dos privilégios que lhes fora dado, assim, deveriam lavrar a terra e comer dela. O Paraíso foi definitivamente perdido.
A serpente, símbolo antigo da sabedoria (a mais astuta), disse que eles podiam entender os mistérios e adentrar grandes segredos se comessem do fruto da árvore do conhecimento.
O Homem então decifrou o enigma que havia dentro do fruto - as sementes que germinavam quando plantadas. Era saboroso o saber e delicioso o descobrimento, entretanto, perdeu-se tudo que lhe era dado.
Ao partirem, o homem e a mulher levaram consigo a fúria de Deus. Sua ira estava sobre tempestades furiosas, secas devastadoras e pragas que destruíam as colheitas. Não havia onde se esconder. 
O ser humano estaria para sempre à mercê da vontade do criador e seu eterno rancor por ter sido desobedecido. 


"O Trabalho de Adão" de Alonso Cano



quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

O Ceifador - O Espírito do Ano Novo


Embora pareça assustador, este mítico personagem tem um simbolismo bastante interessante. É ele quem traz o novo ano.
O senhor do tempo, conhecido como "Father Time" (Pai do Tempo), é representado normalmente segurando uma enorme foice em uma das mãos e um relógio na outra, no qual os ponteiros marcam 00:00h. 
Em primeiro momento se assemelha a figura da "Senhora Morte" (Grim Reaper), mas  também do "Deus Pai" judaico-cristão - por se tratar de um senhor barbado usando uma longa túnica.
Este tipo ermitão é o espírito do tempo.  Alguns o chamam de "O ceifador" - aquele que vem ceifar o ano velho e trazer o ano novo (simbolizado pela criança). O relógio, ou ampulheta, marca o início de um novo tempo.
Saturno
Acredita-se que esta figura tenha origem na mitologia grega, sendo ele uma espécie de "Cronos", o "Senhor do Tempo". Segundo o mito, Cronos mutilou seu pai Urano (Senhor do céu) com uma foice que lhe foi dada por sua mãe Gaia (Senhora da terra).
Cronos foi posteriormente associado a Saturno, deus romano ligado à agricultura. Em meados do solstício de inverno havia um festival chamado Saturnália que era em honra a esta deidade. Nesta data, além dos festejos que duravam vários dias, comia-se, bebia-se muito, e trocavam-se presentes. Quaisquer relações com os costumes natalinos não são meras coincidências.
O dia 01 de Janeiro foi instituído como o primeiro do ano em 46 a.c. pelo imperador romano Julio Cesar. Ou seja, as datas do solstício de inverno (por volta de 21 de Dezembro) e do advento do ano novo se aproximaram. Foi necessária a aproximação das datas para que a figura de Saturno posteriormente inspirasse a figura do "Senhor do Tempo", já que este está ligado à passagem do ano.
Há quem diga que esta alegoria, o velho que dá lugar à criança, venha de um mito adulterado e invertido, pois, sendo o "Espírito do Ano Novo" uma representação de Saturno, este não daria o lugar ao novo, já que na mitologia romana, Saturno devora seus filhos para que estes não lhe tomem o poder.
Mas, como nos mitos tudo se transforma, o cruel Saturno se converteu no bondoso Ceifador. Não se sabe ao certo como isto aconteceu, nem como surgiu esta figura mítica como é conhecida hoje, mas é provável que tenha adquirido tais características de modo muito gradativo; mesclando-se aos poucos aos novos costumes, do renascimento em diante.
Sabe-se que teve mais força a partir do século XIX, onde começou a estampar cartões de natal com os votos de "Feliz Ano Novo". A antiga túnica greco-romana foi substituída por um hábito tipicamente franciscano e, não raramente, é representado com asas como as dos anjos cristãos.
A figura do Ceifador é mesmo uma bela alegoria de como o antigo sucumbe ao novo.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

O Pinheiro - Árvore do Natal

O pinheiro é, sem dúvidas, um dos grandes símbolos do Natal. Enfeitar a árvore e colocar embaixo dela os presentes que serão distribuídos no dia 25 de Dezembro tornou-se uma tradição para boa parte de nossa cultura ocidental.
Mas, embora existam diversas teorias em relação as suas origens, não se sabe bem quando foram utilizados os primeiros pinheiros neste contexto. É certo que grande parte desta prática remonta a tempos anteriores ao cristianismo.
Há inúmeras teorias e um tanto mais de especulações. Não entrarei nas supostas árvores que eram utilizadas na Saturnália romana e nem nos mitos de Nimrod, pois existem muitas informações controversas.
É sabido que arbustos sempre-verdes - aqueles cujas folhas não caem no inverno - eram utilizados em antigos rituais pagãos europeus, principalmente nas festividades do solsticio de inverno. 
No hemisfério norte, grande parte das árvores do clima temperado são de folhas caducas e, entre as poucas que se mantêm, estão os azevinhos e os pinheiros.
Os azevinhos eram muito utilizados nesta época do ano entre os antigos povos da Grâ-Bretanha, as guirlandas decoravam as casas e muitas eram oferecidas às fadas das florestas. Sabe-se que os viscos, tão venerados pelos druidas, também enfeitavam as guirlandas, costume que até hoje persiste.
Quanto ao pinheiro, ou abeto, há muitas sugestões, mas acredita-se que sua origem esteja na Alemanha.
Há quem diga que o pinheiro enfeitado foi uma inspiração de Martinho Lutero - o responsável pela reforma
Martinho Lutero e o Pinheiro de Natal
protestante. Ele passeava numa noite, às vésperas do Natal, por um bosque de pinheiros, e olhava as estrelas quando lhe veio em mente o nascimento do cristo. 
A fins de imortalizar esta imagem, levou uma das árvores para dentro de sua casa, a enfeitou com velas e em seu topo colocou uma estrela. Desde então a prática de levar um pinheiro para casa e enfeita-lo se difundiu pela Europa protestante.
Mas há uma história um pouco mais antiga que conta  uma outra versão de como o pinheiro teria se tornado um símbolo da cristandade, também oriunda deste país.

A Árvore de São Bonifácio


Reza a lenda que São Bonifácio, um clérigo inglês do século VI, foi enviado ao que hoje é a atual Alemanha com a missão de evangelizar e converter os pagãos.  
Conta-se que, próximo a província de Fritzlar, havia um velho carvalho dedicado ao deus Thor, no qual se ofereciam diversos tipos de sacrifícios. 
O santo, perplexo com esta prática, ordenou que a árvore fosse cortada - há histórias que dizem que o próprio Bonifácio a abateu.
Era um árvore sagrada para aquele povo, e eles acreditavam que quem a cortasse seria amaldiçoado. O santo, após faze-lo, mostrou que nenhum mal o atingira e, segundo a narrativa, no local onde estava plantado o antigo carvalho dos sacrifícios, começou a brotar miraculosamente um Abeto.
São Bonifácio levou isto como prova de sua fé e tomou o pinheiro como representação cristã, sua forma triangular como símbolo da santíssima trindade e então o consagrou ao menino Jesus. Daí surgiu o costume de plantar um pinheiro no Natal para homenagear o nascimento do Cristo. Prática que acabou se espalhando pelo território Germano.


O Tronco de Yule

Após as teorias cristãs sobre as origens da árvore de natal, nada mais justo do que contar uma das versões pagãs da prática de cortar uma árvore, leva-la para dentro de casa e enfeita-la.
Um costume que sobreviveu por muito tempo, mesmo após o advento do cristianismo, era o do "Tronco de Yule". 
Em meados de 21 de Dezembro, no Solstício de Inverno, celebrava-se uma festa denominada "Yule".  O nome provém de Jul (pronuncia-se Iul) que por sua vez provém de Jolnir, um dos nomes de Odin - o principal Deus da mitologia nórdica. Festa que era dedicada a ele.
Entre os antigos povos europeus, principalmente da Escandinávia, havia a prática de cortar uma árvore e leva-la para dentro de casa. Costumavam decorar este tronco com fitas e folhas de azevinhos e há quem diga que o encharcavam com vinho e posteriormente acendiam com ele a fogueira.
Havia, em algumas regiões, toda uma cerimônia no corte do tronco de Yule. Conta-se que na Inglaterra, enquanto o tronco era arrastado para a casa, os moradores seguiam em cortejo cantando músicas alegres.
Diziam que o fogo de Yule trazia bênçãos e proteção para a residência e seus habitantes. Após a queima do tronco, um pequeno fragmento era guardado para acender o do próximo ano e as cinzas da fogueira eram utilizadas em diversos ritos de proteção.
Há quem afirme que a prática do corte e queima do tronco se tratava de um ritual associado à fertilidade, já que o inverno é uma época onde a terra simbolicamente está dormindo. O tronco representava o falo sagrado que era reverenciado neste período e as cinzas lançadas na terra serviriam para honra-la na esperança de uma próspera primavera.





terça-feira, 19 de novembro de 2013

Os Círculos de Pedras - Templos de Energia


Não há como não relacionar os antigos monumentos de pedras aos clássicos druidas.
Ainda discute-se se os druidas foram os grandes responsáveis pelas construções dos megálitos encontrados nas regiões que posteriormente foram habitadas pelos celtas. Isto ocorre porque alguns acreditam que  a classe dos druidas antecedeu aos chamados celtas, mas que se firmou do modo que conhecemos nestas sociedades - também atingindo seu auge entre estes povos. 
Algo que ainda divide estudiosos e historiadores é se estes antigos sábios utilizaram, ou não, os monumentos circulares em cerimônias religiosas. Eu, particularmente não consigo conceber a ideia de que os druidas, principalmente os das Ilhas Britânicas, vissem tamanhos monumentos, com todo seu misticismo, e simplesmente os desprezassem como insignificantes pedras erguidas. Sábios, fisósofos, teólogos, astrólogos que eram, não poderiam simplesmente deixar de lado toda representatividade destes megálitos, quando se sabe que muitos deste locais serviram por tanto tempo como observatórios e calendários astronômicos.
Não somente para os celtas e seus ancestrais, mas boa parte dos povos antigos consideravam o círculo a forma perfeita da natureza. Toma-se como principal símbolo o Sol e a Lua, deidades antigas em seus formatos circulares, que representavam bem esta ideia. Também a maneira como estes seguiam suas rotas pelos céus. 
A mudança das estações era vista de forma circular, assim como a vida em suas etapas - nascimento, morte e reencarnação.
Sobre os círculos de pedras - também conhecidos como cromeleques - tomo a liberdade de reescrever as palavras de Philip Carr-Gomm, um dos líderes da O.B.O.D (Ordem dos Bardos, Ovates e Druidas) que se encontram no livro "Os Mistérios dos Druidas" :

"A geomancia é conhecida em todo o mundo, podendo ser definida como a arte e ciência que determina a disposição correta de templos, círculos sagrados, sepulturas e monumentos em relação às forças do céu e da terra. Trata-se de um conhecimento da sacralidade da terra e um dos seus pressupostos de base é o de que esta transporta correntes de energia vital que fluem em linhas, da mesma forma que no nosso corpo também correm veios de energia sutil, conhecida pelos acupunturistas pelo nome de "chi".
Por todo território associado aos antigos druidas, podemos encontrar círculos de pedras em pontos significativos ao longo daquelas artérias do "Espírito da Terra"... Os radiestesistas sempre afirmam que os locais onde podemos encontrar aqueles monumentos emitem fortes radiações, sendo muitas vezes o ponto de cruzamento de correntes de águas subterrâneas... Por volta de 1990, já tinham sido analisados mais de vinte círculos de pedras com recursos a manômetros e outros instrumentos, tendo-se descoberto que, sem exceção, todos eles se encontravam em terrenos que apresentavam índices anômalos de energias naturais quando comparados com os terrenos circundantes. Descobriu-se, além disto, que todos eles ficavam por cima, ou muito próximo de falhas geológicas, o que resulta numa intensificação dos campos magnéticos da terra nestes locais... Encontrando índices significativos de concentração de ultras-sons em vários locais onde existiam pedras erguidas. Estes sinais eram mais fortes pela madrugada, mas tornavam-se ainda mais poderosos na altura dos equinócios de primavera e outono.
Os homens e mulheres que construiram e trabalharam nestes círculos eram claramente pessoas notáveis, que não só conseguiram os feitos de engenharia necessários para a sua construção como os aplicaram respeitando os limites impostos por uma geometria sofisticada e pela ciência da medição, as quais conjugaram com a sua compreensão dos campos de energia (para determinarem a localização de cada círculo) e da astronomia (para determinarem a localização exata de cada pedra."

Druid Menhir
Compreende-se assim que os locais onde foram erguidas as antigas pedras dispostas em forma circular não eram eleitos ao acaso, mas estavam de acordo com a energia que emanava do local. Os métodos utilizados pelos que construiram tais círculos ainda é um mistério, já que certos recursos e equipamentos de medição não estavam disponíveis há milênios atrás. Isto sem contar com a forma ainda intrigante com que os blocos eram movidos.
Sabe-se também que as pedras eram selecionadas de forma muito cuidadosa, sendo muitas vezes extraídas de pedreiras distantes e transportadas por quilômetros - como Stonehenge, cuja as pedras são provenientes do País de Gales. 
Alguns acreditam que muitas destes blocos eram escolhidos por possuírem energias peculiares. Por este motivo, não utilizavam certos exemplares de rochas disponíveis em pedreiras mais próximas. 
Sem dúvidas, os esforços dispensados nas construções de tais monumentos, a escolha do local e a forma com que as pedras eram dispostas, faziam do lugar um espaço sagrado.
As formas circulares, espiraladas e em elipse, eram as preferidas pelos antigos celtas. Isto pode ser notado claramente através das figuras e desenhos esculpidos em pedras e menires.
É provável que os druidas acreditassem mesmo que a energia vital fluía de modo circular. Contudo, não há como saber se foram coparticipantes destas construções, ou aprenderam com os descendentes daqueles e os construiram.
As danças ritualísticas eram circulares, reuniões e celebrações eram normalmente organizadas em círculos. Sendo assim, a energia do local e dos participantes podia interagir e correr de modo mais fluente.
Certamente o círculo é a forma que representa a força em movimento e a vida em seu fluxo. Não é de se estranhar que ainda seja considerado por muitos, uma forma geométrica sagrada.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Sexta-feira 13 - Origens e Mitos



Sexta-feira era o dia consagrado à Freya (Frigga), a principal deusa da Mitologia Nórdica.
Em diversas línguas, o nome correspondente a este dia da semana está associado à Freya: Friday (inglês); Freitag (alemão); Fredag (sueco/norueguês/dinamarquês).
Freya, por sua vez, está relacionada ao planeta Vênus, que também dá nome a este dia em línguas de origem latina: Viernes (espanhol); Venres (galego); Venerdì (italiano); Vendredi (francês); Vineri (romeno).
Sendo a Sexta-feira dedicada à esta Deusa, os antigos povos pagãos do norte do continente costumavam cultua-la neste dia. Dizem que, após o processo de cristianização da Europa, os escandinavos deixaram de venerar Freya, porém, muitos continuaram acreditando em seus poderes. Entretanto, aquela que antes era a divindade do amor de da beleza, tornou-se uma entidade maléfica - passando a ser vista como uma bruxa, que se reunia toda sexta-feira junto à outras feiticeiras em rituais nefastos .
Outros diziam que, neste dia, ela passeava com seu carro puxado por gatos, rogando pragas contra os infiéis. Os gatos, portanto, sendo animais ligados à Frigga, eram apontados como mensageiros das bruxas e temidos como emissários de azar. As sextas-feiras passaram, então, a ser consideradas de mau agouro.
Templários acusados de heresia
Quanto a má sorte do número 13, a principal referência é que no dia 13 de Outubro de 1307, foi oficialmente decretada pelo rei francês, Felipe IV, a perseguição aos Cavaleiros Templários - o que levou diversos membros religiosos às fogueiras, outros tantos à forca e, por fim, à ruína e destruição desta Ordem. 
A razão pela qual o rei Felipe, também conhecido como "O Belo", desejava a supressão dos Cavaleiros é ainda controversa. A mais aceita é que ele tinha interesse nos bens acumulados pela Ordem do Templo e, para confisca-los, ele utilizou sua influência junto ao Papa Clemente V, acusando os Templários de heresia, sodomia e adoração ao diabo.
Era uma sexta-feira.